Assim, a linha imaginária de 500 quilômetros de extensão que divide a ilha passará a ser a única fronteira por terra entre o Reino Unido e a UE. E ninguém sabe ao certo o que acontecerá com esta fronteira, praticamente imperceptível para quem a cruza atualmente, após a saída britânica.
A Folha visitou a região em dezembro e constatou a apreensão dos moradores em ambos os lados da fronteira.
Entenda o impasse envolvendo a fronteira entre as Irlandas:
1. Fronteira surgiu após independência da Irlanda
A fronteira foi desenhada após a Irlanda, majoritariamente católica, conquistar independência do Reino Unido, nos anos 1920. A porção norte da ilha, de maioria protestante, permaneceu sob controle das autoridades de Londres.
As diferenças políticas se mantiveram, e a Irlanda do Norte viu surgirem conflitos entre nacionalistas (favoráveis à reunificação com a Irlanda) e unionistas (partidários da permanência no Reino Unido). A violência deixou mais de 3.600 mortos entre os anos 1960 e 1990.
A situação só foi resolvida em 1998, com a assinatura do Acordo da Sexta-Feira Santa. Ao permitir que nacionalistas tirassem cidadania irlandesa, o tratado pôs fim às hostilidades e promoveu o desmonte dos muros e postos de controle na fronteira.
2. Brexit ameaça livre circulação na fronteira
A saída britânica da UE, marcada para 29 de março, ameaça a estabilidade na fronteira entre as Irlandas verificada nas duas últimas décadas.
Nenhuma das partes quer uma “fronteira dura”, com o restabelecimento de postos de controle, mas a saída da UE deixa poucas alternativas. Para preservar a livre circulação, o Reino Unido precisaria permanecer na união aduaneira e no mercado comum da Europa, o que é rechaçado pelos partidários do brexit.
Outra solução seria criar controles alfandegários no mar entre as ilhas da Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia e País de Gales) e da Irlanda, mas isso prejudicaria a integração da Irlanda do Norte com o restante do Reino Unido.
3. Impasse dá força a movimento por reunificação
A indefinição sobre o futuro da fronteira com a Irlanda contribuiu para a derrota, em votação no Parlamento no dia 15, de um acordo sobre os termos do brexit negociado entre a primeira-ministra Theresa May e as autoridades de Bruxelas.
O impasse dá força ao movimento nacionalista na Irlanda do Norte. A população local votou contra o brexit no plebiscito de junho de 2016 e poderia optar pela reunificação com a Irlanda para permanecer na UE. Pesquisas mostram apoio crescente, mas ainda minoritário, ao divórcio com o Reino Unido.
]]>Terrível, exceto por um detalhe — não aconteceu.
A ação narrada por Torrecillas, circulada via Whatsapp, foi desmentida. Ela própria apareceu na televisão e explicou que tinha uma inflamação em um dos dedos. O causo entrou, assim, para uma já longa lista de notícias falsas (as famigeradas “fake news”) em torno do separatismo catalão.
La mujer q denunció q un @policia le rompió 1 a 1 los dedos de la mano, confiesa en TV3 que tiene una especie de capsulitis en un sólo dedo pic.twitter.com/miy6jKL36S
— Daniel Sirera (@danielsirera) 2 de outubro de 2017
Repórteres espanhóis têm se dedicado a esclarecer que mentiras têm sido utilizadas nessa crise espanhola. O jornal americano “Washington Post” escreveu recentemente sobre o trabalho de Clara Jimenez Cruz, do projeto on-line Maldito Bulo, especializado nessa área. Jimenez afirmou que:
Na Catalunha, com os sentimentos dos dois lados envolvidos, as pessoas estão dispostas a acreditar em qualquer história que favoreça seu argumento. Consumidores das redes sociais têm recebido bastantes notícias falsas.
O diário espanhol “El País” tem compilado também esses casos nestas semanas, apontando à interferência russa na disseminação de mensagens falsas e aos interesses da extrema-direita.
O “El País” notou, por exemplo, que uma imagem de uma vítima da violência policial na Catalunha correspondia a um protesto de 2012 — era a primeira fotografia que aparecia na busca por “homem cabeça sangrando” no Google. Há outros casos neste link, e o “El Mundo” tem também sua lista.
Outro caso já icônico é o da fotografia de policiais cercando uma multidão com uma bandeira independentista catalã. O lábaro não estava na imagem original, o que fez com que usuários da internet produzissem suas próprias interpretações — a vencedora mostra a aglomeração de pessoas erguendo a personagem Khaleesi de “Game of Thrones”. Ambas as montagens estão abaixo:
Foto de Pulitzer. Ho sento, no se qui és l’autor… | Vía @MainatJM #DerechoADecidir #Catalunya pic.twitter.com/tYcwqeIRVB
— Adán González (@rpkampuchea) 1 de outubro de 2017
]]>Impresionante foto de Pulitzer que pasará a la historia ! pic.twitter.com/U6KMRHn3z6
— Fer Novato (@fer_novato) 1 de outubro de 2017
Vocês se distraíram nas últimas semanas, entre furacões, terremotos e declarações variegadas de Donald Trump. Mas, sorrateira, a questão catalã chega ao fim de semana como um dos grandes temas noticiosos do momento — sobre o qual é preciso se informar um pouco mais. Quem são os catalães, por que querem a independência e o que vai acontecer? O Orientalíssimo blog explica.
O QUE É A CATALUNHA?
No nordeste do país, essa é uma das 17 regiões espanholas. Vivem ali 7,5 milhões de pessoas, responsáveis por quase 20% do PIB espanhol. Sua capital, Barcelona, foi sede da Olimpíada de 1992 e recebe oito milhões de turistas por ano. A Catalunha está sujeita ao governo central espanhol, mas tem algum nível de autonomia, com uma administração regional e sua própria polícia.
POR QUE QUEREM SER INDEPENDENTES?
É uma luta antiga dessa região, influenciada pelos nacionalismos do século 19. A Catalunha tem uma história e uma língua próprias e quer se separar da Espanha. Um dos argumentos recorrentes é sua pujança econômica, não revertida de maneira proporcional nos investimentos do governo central.
POR QUE AGORA?
A Catalunha é governada por uma coalizão de partidos separatistas desde 2015, e a independência é o ápice de seus programas políticos. O cálculo é que a mobilização vai aumentar sua base eleitoral.
O REFERENDO É LEGAL?
A rigor, não. O governo de Madri já avisou inúmeras vezes que essa consulta viola a Constituição espanhola, que não prevê esse tipo de medida. A lei catalã para a realização do referendo deste domingo foi suspensa pelo Tribunal Constitucional espanhol —algo ignorado pelos separatistas.
COMO MADRI TEM REAGIDO?
O governo espanhol tomou diversas medidas para impedir o referendo. A polícia recolheu 9,8 milhões de cédulas, por exemplo, e as cartas de convocação aos mesários. Madri também deteve membros da organização da consulta e aplicou multas a organismos catalães. Dezenas de sites com informações sobre o voto foram derrubados pelas autoridades durante esta semana.
TODO O MUNDO QUER SER INDEPENDENTE?
Não. Em uma sondagem de 2012, apenas 51% dos catalães disseram aprovar a independência, segundo o Centre d’Estudis d’Opinió. Essa é uma das questões sociais mais urgentes em torno do referendo: o que aconteceria com a metade que prefere continuar sendo espanhola?
É A PRIMEIRA TENTATIVA?
Não. Houve uma consulta em novembro de 2014 em que 80% dos eleitores votaram pela independência —mas apenas 2,2 milhões dos 5,4 milhões de eleitores participou, o que dá pouco sustento à separação. Como o referendo deste domingo, aquele voto foi considerado ilegal.
O QUE ACONTECE SE A INDEPENDÊNCIA FOR APROVADA?
O Parlamento catalão pode, em tese, declarar a independência unilateral em 48 horas, o que não tem efeito legal, na interpretação do governo central. Madri pode, em caráter emergencial, tomar o controle administrativo de toda a região e deter o presidente catalão, Carles Puigdemont.
A SITUAÇÃO PODE SE AGRAVAR?
Sim. Não ao ponto da violência, mas é possível que em termos políticos a Espanha passe por um período de crise. O fervor independentista catalão foi um dos gatilhos para a guerra civil espanhola, que levou à ditadura de Francisco Franco. A língua catalã foi proibida durante o regime.
QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS POLÍTICAS?
O primeiro-ministro Mariano Rajoy, do conservador PP (Partido Popular), governa hoje em uma coalizão de minoria. A crise catalã pode levar a pressões insuportáveis em seu gabinete, com a exigência da oposição de que ele renuncie. Ele pode dar a volta por cima, no entanto, convocando eleições antecipadas e se apresentando como o único candidato capaz de governar nesta crise.
QUAIS SÃO AS CONSEQUÊNCIAS ECONÔMICAS, SE HOUVER INDEPENDÊNCIA?
No curto prazo, haveria impacto negativo tanto na Catalunha quanto no restante da Espanha. Mas o governo catalão espera aproveitar sua forte economia para se consolidar no cenário internacional.
A CATALUNHA SERIA PARTE DA UNIÃO EUROPEIA?
Não imediatamente. Em tese, como era o caso quando a Escócia votou por sua independência e foi derrotada, a Catalunha precisaria entrar no fim da fila para aderir ao bloco. Nem está claro se os independentistas gostariam desse cenário —parte é contrária à moeda comum europeia, o euro.