Quem está participando da batalha por Mossul, no Iraque?

Por Diogo Bercito

O Exército iraquiano deu início na segunda-feira (17) a uma extensa ofensiva militar para retomar do Estado Islâmico o controle da cidade de Mossul, no norte do país. Com 1,5 milhão de habitantes, a segunda maior cidade iraquiana é a “capital” dessa organização terrorista no país e uma de suas últimas bases em território iraquiano.

A batalha, que já era esperada e pode durar por meses, é crucial para a estabilidade da região. Os embates podem significar, também, uma crise humanitária — possivelmente a mais grave deste ano, com centenas de milhares de refugiados expulsos da cidade.

A ilustração abaixo mostra os primeiros avanços rumo a Mossul. Mas quem não acompanha o noticiário do Oriente Médio pode eventualmente perguntar-se: quem está participando da batalha, e com que interesses? Este generoso Mundialíssimo blog responde logo abaixo da imagem.

 

ESTADOS UNIDOS
Os Estados Unidos são um aliado fundamental nesta guerra. O governo americano está auxiliando na coordenação terrestre e, ao mesmo tempo, bombardeando os entornos da cidade. A tomada de Mossul é um dos últimos objetivos externos da administração de Barack Obama, que no final deste ano deixará a Presidência dos EUA, sendo substituído por Hillary Clinton ou por Donald Trump.

IRAQUE
O governo iraquiano, que planeja a ofensiva há mais de um ano, está apostando na retomada de Mossul. Havia bastante expectativa quanto à administração de Haidar al-Abadi, premiê do Iraque, mas ele está afogado em crises desde que assumiu o poder em 2014. Um dos desafios do governo iraquiano será gerenciar as diferentes forças envolvidas no ataque a Mossul, evitando conflitos sectários — a participação curda incomoda a Turquia, por exemplo, e milícias xiitas terão que ser bloqueadas para não entrar em combate com rivais sunitas na região (existe hoje no Iraque tensão entre ambos os ramos do islã).

CURDISTÃO
Essa região semiautônoma, que tem ganhado força nos últimos anos, está por enquanto na linha de frente da operação pela recaptura de Mossul. Seus soldados, conhecidos como peshmerga, tomaram vilarejos ao redor da cidade e abriram caminho para o restante das tropas. Já na segunda-feira o governo curdo havia anunciado a tomada de uma área equivalente a 200 quilômetros quadrados, maior do que a Zona Oeste de São Paulo. A vitória em Mossul pode reforçar sua luta por mais independência e por melhores acordos na exportação de seu petróleo.

ESTADO ISLÂMICO
Foi em Mossul que a organização terrorista Estado Islâmico declarou seu califado em 2014, com um discurso do auto-proclamado califa Abu Bakr al-Baghdadi. Assim, a cidade tem valor simbólico. Mas Mossul é também a segunda maior cidade do Iraque, e a principal base dessa milícia. Se tiver que abandonar a fortaleza e fugir rumo a Raqqa, na Síria, o Estado Islâmico estará sofrendo o golpe mais duro dos últimos anos. O que não significa que terá sido derrotado — essa organização atua no Iraque há mais de uma década, e já passou por outros maus bocados.

Abu Bakr al-Baghdadi durante discurso em Mossul, em 2014. Crédito Reuters
Abu Bakr al-Baghdadi durante discurso em Mossul, em 2014. Crédito Reuters

TURQUIA
Segundo o jornal americano “Washington Post”, tropas turcas atuam há algum tempo no norte do Iraque treinando tropas sunitas. A Turquia está, ao que parece, apoiando a ofensiva em Mossul — chateando o governo iraquiano, que lhe pediu para retirar-se. A Turquia tem um claro interesse em estar ali quando a cidade for retomada, fortalecendo sua posição histórica no Oriente Médio. Além disso, será uma oportunidade para impedir o avanço de milícias curdas, que a Turquia combate em seu próprio país e na vizinha Síria.