O que há na Olimpíada além dos pescoços cheios de medalhas?

Por Diogo Bercito

Encerrou-se no domingo (21) o trabalho de escavação ao qual atletas de todo o mundo estavam empenhados, cavoucando em busca de ouro, prata e bronze. Os Estados Unidos, com ou sem escândalo na natação, venceram a competição – 46 medalhas douradas, em um total de 121. O Brasil, em 13º lugar, teve sete ouros entre as 19 insígnias.

Apesar do tal espírito esportivo, a Olimpíada premia os vencedores, e é preciso olhar lá embaixo na lista para ver que dez países empataram com apenas uma medalha de bronze cada um. E vejam só, um bronze ainda é um ótimo resultado, já que 72 dos 206 comitês olímpicos que participam dos jogos nunca ganharam nadica de nada. Países como Bolívia, Mônaco e Nepal seguem sonhando subir ao pódio.

Mas, como esta coluna tentou ressaltar nas últimas semanas, a Olimpíada é mais do que os pescoços pesados de tantas condecorações dependuradas. É uma reunião dos representantes de países que por vezes se detestam, e cenário para constrangimentos diplomáticos como o judoca egípcio que não quis cumprimentar seu rival israelense.

É também um palco para a disputa de crises territoriais, como a que envolve Armênia, Turquia e Azerbaijão em torno de Nagorno-Karabakh. Na rádio pública da Armênia, o contexto da cobertura de seus atletas de luta greco-romana era claro, ao noticiar a vitória de armênios em cima de seus competidores turcos e azeris.

Países participam da Olimpíada também como maneira de criar uma imagem de suas nações, em meio a seus esforços pelo reconhecimento internacional. É o caso de Kosovo, cuja judoca Majlinda Kelmendi venceu o ouro e trouxe de volta ao debate a crise em torno desse território, disputado com a Sérvia (o Brasil não reconhece a independência de Kosovo, por exemplo).

É o caso também do Sudão do Sul, recém-independente, e da Palestina, há décadas em disputa com Israel pelo controle da faixa de Gaza e da Cisjordânia. Ir aos jogos olímpicos é, afinal, uma maneira de fazer parte da máquina do mundo enquanto o reconhecimento pleno pelas Nações Unidas tardar – não chegará a Kosovo, com o veto russo, nem à Palestina, com o veto americano.

A propósito, não por coincidência quatro dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU com poder de veto estão no topo do pódio da Olimpíada: EUA, Reino Unido, China e Rússia. Ficou faltando a França, que chegou em 7º lugar. Mas sobraram evidências do quanto há em comum entre as partidas jogadas no mapa-múndi e aquelas disputadas no Rio.

De vermelho, o atleta armênio Migran Arutyunyan. Crédito Reuters
De vermelho, o atleta armênio Migran Arutyunyan. Crédito Reuters