Um time de estrangeiros pode representar o Qatar na Olimpíada?

Por Diogo Bercito

O desempenho do Qatar no handebol masculino chateia muita gente, em sua busca por uma vaga nas quartas de final desta semana. Para além de boladas e gols, que não são a quadra desta coluna, o time árabe tem incomodado pela ideia de que seus atletas não representam de fato a nação. O técnico é espanhol e 70% dos jogadores são naturalizados, incluindo o cubano Rafael Capote e Zarko Markovic, de Montenegro. Se não nasceram no Qatar, estranha a espectadores que carreguem a bandeira do país.

O Qatar, localizado no golfo Árabe, não está driblando as regras. A federação do handebol estipula que um jogador naturalizado que não tenha disputado por outro país nos últimos três anos pode representar outra nação. O Qatar tem 2,2 milhões de habitantes, mas apenas cerca de 12% deles são cidadãos, e o restante, estrangeiros.

Mas a noção é talvez modernosa demais a um evento esportivo nascido no final do século 20, em um contexto de nacionalismos rompantes. Há também desagrado em torno da ideia de que o Qatar tenha “comprado” o time para projetar-se no exterior. Quando a França jogou contra o Qatar, durante a semana passada, um de seus atletas disse que há um prazer especial em derrotar aquela seleção na Olimpíada, evento “em que você vem para representar seu país”. “Nós jogamos por amor ao jogo, eles jogam por dinheiro”, afirmou. No mesmo espírito, comemorou-se a vitória da judoca Majlinda Kelmendi, de Kosovo, com algum orgulho por sua anterior recusa em representar outros países. “Neguei tantas ofertas, tantos milhões”, disse a atleta.

qatar2

Outro caso incômodo à ideia de nação é o do hipista Christian Zimmermann, que disputou na categoria adestramento representando a Palestina. Zimmermann nasceu, cresceu e treinou na Alemanha e, segundo o jornal israelense “Haaretz”, buscou a dupla nacionalidade para competir. Com algum azedume, esse diário disse que o atleta é “bastante não palestino” e tem “aparência de europeu” (o que quer que isso signifique em Israel).

Zimmermann justificou sua participação em nome do território árabe como uma maneira de fazer com que os espectadores reflitam sobre a perspectiva palestina do conflito no Oriente Médio. Por ser alemão, diz, ele tem uma responsabilidade especial em relação à região –o regime nazista matou milhões de judeus durante o Holocausto. Mas Ricki Rothschild Bachar, da Federação Equestre Israelense, escreveu sobre Zimmermann com algum ceticismo, mais uma vez segundo o “Haaretz”: “Você acha que ele sabe onde fica a Palestina? Eu não creio”.