Na Olimpíada, sigla nos uniformes de Kosovo é aceno geopolítico

Por Diogo Bercito

Quando a judoca Majlinda Kelmendi, 25, rolar no tatame, disputando uma medalha no Rio, ela se cobrirá com o quimono como quem veste uma ideologia. As três letrinhas estampadas em suas costas, KOS, serão lidas como um aceno geopolítico.

Kelmendi faz parte da comitiva de Kosovo, que declarou sua independência da Sérvia em 2008. O Brasil ainda não reconhece essa nação balcânica, mas o Comitê Olímpico Internacional, sim. Assim, Kosovo participará dos jogos durante as próximas semanas, e Kelmendi é uma de suas principais apostas para garimpar o metal das medalhas. A jovem já foi premiada em outras competições, incluindo o primeiro lugar no Mundial de judô de 2013, no Rio.

A história de Kelmendi tem traços da trajetória da jovem república. A atleta foi classificada para a Olimpíada de 2012, em Londres, mas Kosovo ainda não havia sido aceito pelo Comitê Olímpico Internacional. A judoca quis competir como atleta independente, o pedido foi recusado. Para não vestir o SRB da Sérvia que havia deixado, Kelmendi decidiu carregar o ALB da vizinha Albânia.

As siglas, inocentes nos uniformes, não dão conta de explicar a tensão da história dessa região. A escolha de disputar a Olimpíada representando a Albânia, em vez da Sérvia, tem um pano de fundo étnico e registra a memória ainda viva de confrontos recentes. Conflitos entre albaneses e sérvios –duas das etnias da antiga Iugoslávia– levaram à guerra de Kosovo entre 1998 e 1999. Kosovo teve apoio da Otan (aliança militar ocidental), que bombardeou o país. Estima-se que houve mais de 13 mil mortos, entre civis e combatentes.

Uma albanesa entre outros refugiados da guerra de Kosovo, em 1999. Crédito Reuters/Otan
Uma albanesa entre outros refugiados da guerra de Kosovo, em 1999. Crédito Reuters/Otan

Kosovo passou a ser protegido pela ONU, então declarou sua independência. A Sérvia não reconhece a separação, mas 109 dos 193 Estados-membros das Nações Unidas consideram a república como soberana. Na União Europeia, 23 dos 28 países reconhecem Kosovo. Entre as exceções está a Espanha, que enfrenta movimentos nacionalistas em seu território, como a Catalunha. O reconhecimento pleno na ONU é por ora improvável, pois a Rússia, contrária à independência de Kosovo, tem poder de veto no Conselho de Segurança.

Kosovo foi o penúltimo Estado a ser reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional. O mais recente foi o Sudão do Sul, que declarou sua independência em 2011 e entrou no Olimpo em 2015. Há, porém, diversos comitês olímpicos que ainda não são reconhecidos, como Macau, Catalunha e Curdistão. Quem sabe suas siglas não estampam os uniformes em Tóquio, em 2020 –se a geopolítica permitir.