É possível alguém se radicalizar só pela internet?

Por Diogo Bercito

Omar Mateen, que no domingo (12) matou 49 pessoas em uma boate gay em Orlando, provavelmente radicalizou-se via internet, segundo afirmou o presidente americano Barack Obama. Ou seja –o atirador, de 29 anos de idade, não teve contato com a organização terrorista Estado Islâmico nem recebeu ordens dela.

Mas o jovem dedicou seu ataque ao auto-proclamado califado, e foi louvado como um de seus soldados. Ele agiu de acordo com diversas das mensagens divulgadas pelo Estado Islâmico na internet, nos últimos anos, pedindo que extremistas realizassem atentados por conta própria.

Casos como o de Mateen são um desafio às autoridades, porque fogem às estratégias até então convencionais do terrorismo. O monitoramento do acesso à internet, já realizado pelos serviços de segurança, ainda não é capaz de identificar com precisão quais são as ameaças reais.

Mas, como um jovem se radicaliza por meio da internet, e o que pode ser feito para impedi-los.

Com essa dúvida isso em mente, o Mundialíssimo blog fez três perguntas para Jennifer Breedon, analista legal do Projeto Clarion, que combate o extremismo. As respostas estão abaixo.

*

Mundialíssimo – É factível que um jovem americano, como Omar Mateen, possa se radicalizar pelo acesso à propaganda on-line do Estado Islâmico?
Jennifer Breedon – Sim. É bastante factível. Na verdade, são as redes sociais que estão permitindo que jovens americanos acessem recursos e o “apoio” necessário para perpetuar sua ideologia radical. Como o Estado Islâmico é um movimento global, eles têm os recursos para verbal, mental e fisicamente apoiar jovens americanos que sentem que devem unir-se à luta. Eles também miram naqueles americanos que buscam um sentido de “objetivo” e “identidade” no mundo mas não são muçulmanos por nascimento ou herança. Vemos diversos jovens “ocidentais” unindo-se ao Estado Islâmico. Em uma era em que jovens idolatram celebridades, muitos sentem que fazer parte do EI vai dar a eles um objetivo e uma fama mesmo sem que tenham sido religiosos durante sua vida.

Entre toda a informação disponível (por exemplo, a revista oficial do EI, o Twitter e o Facebook) qual é a ferramenta mais eficiente para a radicalização on-line?
Os três exemplos são eficientes. Muitas pessoas usam um meio mais do que os outros, então o Estado Islâmico mira em todos para conseguir o maior número possível de recrutas. No Projeto Clarion, monitoramos de maneira próxima todas as contas nas mídias sociais porque é a melhor maneira de obter informações sobre quais são suas intenções e em quem eles estão mirando. O EI sabe que sua audiência são jovens que usam as mídias sociais, então essa organização terrorista quer estar tão acessível quanto possível àqueles que têm qualquer intenção de ser parte de seu movimento genocida.

Capa da revista "Dabiq", publicada pelo Estado Islâmico. Crédito Reprodução
Capa da revista “Dabiq”, publicada pelo Estado Islâmico. Crédito Reprodução

Como governos podem lidar com esse cenário?
É um jogo difícil para os governos, agora. Governos reformistas no Oriente Médio, como o Egito, entendem essa ideologia e a necessidade de uma postura ofensiva contra ela. Governos precisam revidar na frente ideológica. Quando o assunto é derrubar contas nas redes sociais, temos que nos lembrar de que a ignorância não é um recurso. Essas contas permitem que a gente monitore sua ideologia e identifique seus pontos fracos. Apagar contas pode ser efetivo por um tempo, mas eles vão mover-se para outra maneira de comunicação. Então atrasamos a propaganda, mas não impedimos a comunicação, e esses atrasos não valem a perda de informações de inteligência. Governos precisam começar a definir a ideologia do Estado Islâmico pelo que ela é, e parar de evitar a menção ao “islã radical”. Também precisamos atacá-los pelo aspecto da reforma e retomar a cultura pacífica do islã desses bárbaros –mas isso não pode acontecer até que nós enfrentemos os fatos sobre a ameaça real.