Os problemas do Oriente Médio são resultado das fronteiras artificiais?

Por Diogo Bercito

Há cem anos, em 16 de maio de 1916, França e Reino Unido estabeleceram um acordo secreto estabelecendo suas zonas de influência no Oriente Médio após o eventual colapso do Império Otomano. O acordo –“Sykes-Picot”– leva o nome de seus negociadores, os diplomatas britânico Mark Sykes e francês François Georges-Picot.

Tornou-se, nos últimos anos, um argumento recorrente culpar esse documento pelas crises do Oriente Médio. As fronteiras, traçadas com régua no mapa-múndi, determinaram os incontáveis conflitos do século. As zonas de influência estipuladas pelas potências àquela época, com consentimento russo, não respeitaram os diversos povos e religiões e, ao levar à formação de países como Síria e Iraque, semearam guerras civis e massacres.

Com o aniversário do acordo, têm circulado artigos conflitantes sobre o tema. Apesar de a imprensa árabe ter recebido a data com amargor, boa parte das análises internacionais minimiza o impacto de Sykes-Picot no Oriente Médio e busca outras explicações para essas crises. Este Mundialíssimo blog resume, abaixo, dois textos com argumentos diferentes –mas há mais material aos curiosos aqui, aqui e aqui.

NADA A VER! :-0

Steven Cook, especialista no Conselho de Relações Internacionais, publicou há alguns dias o artigo “Não Culpe Sykes-Picot pela Confusão no Oriente Médio”. Ele ironiza, já no início de seu texto, a tendência entre jornalistas e analistas em relacionar o acordo de 1916 às agruras da região –especialmente recorrente nos últimos três anos, desde a publicação de um artigo específico sobre o tema.

“Não é difícil de entender a razão. Quatro estados no Oriente Médio estão falhando –Síria, Iraque, Iêmen e Líbia. […] A história parece ter se vingado de Mark Sykes e sua contraparte francesa, Georges-Picot”, escreve Cook. Mas o argumento só leva a novos desentendimentos sobre a região, afirma.

Em primeiro lugar, porque o acordo nunca foi implementado como tal, apesar de ter sobrevivido durante as negociações após a guerra. As zonas de influência sugeridas por Sykes e Georges-Picot nunca se concretizaram.

Cook também argumenta que as fronteiras modernas do Oriente Médio têm precedentes. “Sim, são o trabalho de diplomatas europeus e funcionários coloniais, mas não são linhas desenhadas caprichosamente em um mapa em branco. Elas foram baseadas, em sua maior parte, em realidades políticas, sociais e econômicas da região, incluindo divisões administrativas otomanas.”

Os conflitos no Oriente Médio têm origem não na validade das fronteiras, diz Cook, mas na disputa sobre quem tem o direito de dominar esses Estados. Não foram as “fronteiras artificiais” que levaram às divisões étnicas e religiosas na região, mas os líderes políticos que fomentaram essa separação para manter seu poder. Saddam Hussein, no Iraque, por exemplo, ou Bashar al-Assad na Síria.

Imagem divulgada pelo Estado Islâmico em 2014, com a suposta destruição de um trecho da fronteira entre Iraque e Síria. Crédito Reprodução
Imagem divulgada pelo Estado Islâmico em 2014, com a suposta destruição de um trecho da fronteira entre Iraque e Síria. Crédito Reprodução

ALGUMA CULPA O ACORDO TEM… =/

O analista libanês Rami Khouri, professor na Universidade Americana de Beirute, publicou recentemente um artigo sobre as consequências de Sykes-Picot. É “intemperança neocolonialista” ignorar o acordo e concentrar-se nas razões internas pelas quais a região tem vivido catástrofes décadas após décadas, diz.

São, assim, equivocadas as explicações de como os árabes foram incapazes de assimilar o conceito de um Estado moderno ou implementar a noção de cidadania. Mas Khouri também discorda de quem culpa apenas o colonialismo pelas crises no Oriente Médio. “Precisamos de análises mais completas e integradas dos fenômenos múltiplos que moldaram nosso último século.”

Khouri afirma que a incapacidade de Estados regionais em criar crescimento econômico sustentável e democracias plurais é a razão central dos problemas atuais. Essa crise está relacionada, diz, não apenas a 1916 –e sim a um modo colonial de abordar a região. Um tipo de visão presente, por exemplo, nos conflitos da Guerra Fria entre EUA e Rússia, reproduzidos no Oriente Médio.

Mas há uma série de outros fatores, incluindo regimes autocráticos, explosões populacionais, desequilíbrios ambientais e disparidades sócio-econômicas –enquanto “autocracias corruptas”, “militarismo estrangeiro” e a disputa entre árabes e israelenses continuaram a moldar a região.

Então, “vamos nos lembrar de Sykes-Picot e de seu consequente tumultuoso século, mas vamos também evocar honestidade e integridade na análise dos fatores regionais e globais que nos levaram a esse festival de horrores”, escreve Khouri.