O mapa-múndi poderia estar de cabeça para baixo?

Por Diogo Bercito

Poder, tudo pode.

Mas a pergunta tem um quê de filosofia, e costuma circular nas listas de não sei quantos mapas que vão te surpreender (como estes compilados pelo espanhol “El Confidencial”). Nós estamos habituados a ver a América do Norte, bem, no norte, e a do Sul, no sul –mas essa representação não é natural, e nem é a única que foi registrada durante a história.

Segundo um artigo de Nicole De Armendi publicado no “St Andrews Journal of Art History and Museum Studies”, a orientação dos mapas “afirma posições de poder, traça certas redes globais e estabelece relações hierárquicas entre as nações e os continentes”. Não por acaso diversas das contestações políticas a esse sistema vieram da América Latina. Por exemplo, a ilustração do artista uruguaio Joaquín Torres García em 1943, “O Mapa de Ponta-Cabeça”, abaixo:

 

Ilustração de Joaquín Torres García. Crédito Reprodução
Ilustração de Joaquín Torres García. Crédito Reprodução

A argentina Mafalda, desenhada por Quino, também indagou-se sobre a razão de estarmos sempre abaixo da Europa e da América do Norte. Ela diz: “Você não vê que os países desenvolvidos são justamente os que vivem cabeça-acima? Por viver cabeça-abaixo, nossas ideias caem!”.

Tirinha de Mafalda. Clique para ver uma versão ampliada. Crédito Reprodução

Entre os posicionamentos políticos, repete-se que o mapa tem essa orientação porque foi desenhado por europeus –que, por egocentrismo, se colocaram no topo do mundo. Mas um interessante artigo publicado pela rede de TV árabe Al Jazeera contesta esse argumento com exemplos históricos. “Na verdade, o status de elite do norte na cartografia tem mais a ver com monges bizantinos e judeus de Maiorca do que com qualquer inglês”, escreve Nick Danforth.

No século 15, o mundo era mapeado a partir de diversas perspectivas. Neste exemplo, o leste está no topo. Neste outro, o sul está em cima. Mas, no século 16, cartógrafos passaram a basear-se em um mapa creditado a Ptolomeu, que viveu em Alexandria durante o século 2 d.C. A versão que circulava, à época, era a cópia feita por um monge no século 13 –com o norte no topo.

Os cartógrafos que fizeram os primeiros grandes e belos mapas do mundo inteiro, antigo e novo –homens como Mercator, Germanus e Waldseemuller–, estavam obcecados por Ptolomeu. Eles produziram cópias da geografia de Ptolomeu na recém-inventada prensa.

Segundo Danforth, a orientação do mapa-múndi é, de certa maneira, o resultado do acaso e das limitações tecnológicas das épocas passadas. Mas, apesar de o norte já estar consolidado no topo da cartografia, o autor sugere que as tentativas de inverter a imagem não sejam descartadas tão rapidamente. Afinal, “simbolizam um desejo nobre: que invertamos as injustas relações políticas e econômicas no nosso mundo tão facilmente quanto viramos um mapa nas nossas paredes”.

Os pinguins agradecem.

Ilustração publicada na revista "New Yorker". Crédito Reprodução
Ilustração publicada na revista “New Yorker”. Crédito Reprodução