O mercado de petróleo alimenta o autoritarismo e as guerras?

Por Diogo Bercito

No mundinho dos recursos naturais, o petróleo tem uma das piores famas. O tal ouro negro, que brota em países como Venezuela e Arábia Saudita, é um produto sangrento segundo o pesquisador Leif Wenar. Autor de “Blood Oil” (Oxford University Press), Wenar relaciona o consumo diário do petróleo e seus derivados –como o plástico– com regimes autoritários e guerras civis.

Petróleo. Crédito Akintunde Akinleye/Reuters
Petróleo. Crédito Akintunde Akinleye/Reuters

O assunto é, nesses dois últimos anos, urgente. O preço despencou de US$ 100 a US$ 33, golpeando os Estados que dependem dessa renda para, diz o autor, reprimir e subornar suas populações. Um exemplo é a Arábia Saudita, cuja crise abordei recentemente em uma reportagem publicada pela Folha.

Cotação do petróleo tipo brent, em dólares. Crédito Reprodução/Nasdaq

O site americano Vox recentemente conversou com Wenar sobre o assunto. Este Mundialíssimo blog resume, abaixo, três dos principais pontos da entrevista.

PETRÓLEO ATRASA A DEMOCRATIZAÇÃO
A onda de democratização ao redor do mundo nas últimas três décadas passou batida em Estados baseados no petróleo, segundo Wenar. “Eles não estão mais ricos, não estão mais livres, não estão mais pacíficos”, diz. Isso porque esse recurso, que é gasto com menos transparência do que os demais, é utilizado na compra de armas e para iniciar ou manter conflitos civis. Além disso, Estados como a Arábia Saudita se aproveitam da renda do petróleo para oferecer benefícios a seus cidadãos e, assim, evitar manifestações contrárias ao regime, segundo o autor.

O PETRÓLEO É DE QUEM PEGAR
Não importa o regime. Quem controla o petróleo pode vendê-lo. Essa regra da força, diz Wenar, é provada pelo fato de que o mundo passou a comprar o petróleo do Iraque logo após o golpe de Saddam Hussein, assim como comprou dos rebeldes que derrubaram o ex-ditador líbio Muammar al-Qaddafi. Atores internacionais tampouco hesitaram em inicialmente comprar o petróleo vendido pelo Estado Islâmico, permitindo que essa organização terrorista montasse um aparato militar em seu território.

Explosão em tanque de petróleo em Ras Lanuf, Líbia. Crédito Reuters
Explosão em tanque de petróleo em Ras Lanuf, Líbia. Crédito Reuters

NÃO É SÓ UMA QUESTÃO DE COMBUSTÍVEL.
Você pode dizer: “Bem, mas eu ando de bicicleta,  não uso gasolina. Isso não tem nada a ver comigo”. Mas o petróleo não é apenas fonte de combustível. “Pagamos pelo ‘petróleo de sangue’ a cada vez que compramos alguma coisa que é feita de petróleo ou transportada por petróleo, o que é quase tudo”, diz Wenar. Brinquedos, vinis, sapatos, batons, laptops.  “Não percebemos […], mas estamos mandando nosso dinheiro a alguns dos homens mais violentos e agressivos no mundo.”