O que significa a vitória da oposição na Venezuela?

Por Diogo Bercito

A oposição venezuelana conquistou a maioria da Assembleia Nacional na eleição parlamentar de domingo (6), informa o correspondente da Folha Samy Adghirni. A vitória reequilibra as forças no país depois de 16 anos de hegemonia chavista.

Mas… Calma, uma coisa de cada vez. Se perdeu no meio do caminho? Este Mundialíssimo blog responde –com a ajuda de Adghirni– a nove perguntas sobre o tal pleito venezuelano:

Chavismo quem?
Chavismo é o nome dado a um projeto ideológico de redistribuição da renda petroleira criado por Hugo Chávez –líder venezuelano por 14 anos, entre 1999 e 2013, ano de sua morte. Essa força política era, até este domingo, praticamente imbatível no país. Mas acaba de perder um importante pleito.

Por que o chavismo foi tão forte?
Porque surgiu com a proposta de “cuidar” da maioria pobre da população, que vivia em situação de miséria enquanto um punhado de famílias dividiam os petrobilhões do país. Um dos líderes mais carismáticos da América Latina, Chávez deu saúde e educação gratuitas, melhorou pensões e entregou centenas de milhares de casas populares. Este modelo, porém, se desgastou devido a uma mistura de má gestão, radicalismo, corrupção e queda da arrecadação petroleira.

Quando você diz “oposição”, do que estamos falando?
Da coalizão MUD (Mesa da Unidade Democrática), que nesta segunda-feira (7) afirmou que sua vitória –99 deputados das 167 cadeiras da Assembleia Nacional– representa o “começo da mudança” no país. O grupo tinha por slogan “A Venezuela Quer Mudanças”.

A MUD é de direita?
A MUD é composta por várias correntes com posições muito diferentes. Alguns partidos, como Vontade Popular, de Leopoldo López, têm agenda liberal. Outros, como o Primeiro Justiça, de Henrique Capriles, são de centro-esquerda.

Como o governo venezuelano recebeu a notícia?
O presidente Nicolás Maduro admitiu a derrota. Ele afirmou, em pronunciamento: “Aceitamos os resultados (…) Jogamos limpo, perdemos a batalha”. Assim, não cumpriu a ameaça de resistir com violência à eventual derrota. Mas não se sabe como reagirão as outras forças dentro chavismo. É provável que surjam divergências entre radicais dispostos a confrontar o novo Legislativo e moderados ansiosos por negociar com a oposição.

Jogou limpo mesmo?
A campanha venezuelana foi marcada por uma série de manobras do governo para manter o controle do Parlamento, incluindo impedir candidatos opositores, alterar o mapa das circunscrições para inflar a representatividade chavista e barrar ofertas para a observação internacional. Mesmo o Brasil, que é por vezes acusado de não repreender o governo venezuelano, criticou essas medidas.

Por que o chavismo não venceu? Achei que sempre vencesse…
O resultado do pleito é interpretado como uma rejeição ao governo chavista que, apesar das conquistas sociais, é responsabilizado pela degradação abrupta das condições de vida. Segundo o correspondente Adghirni, o processo agravou-se com a queda dos preços petroleiros a partir de 2014.

CRISE NA VENEZUELA – Quais os grandes problemas da Venezuela hoje?

Me dá um exemplo mais claro?
Uhum. O colunista Clovis Rossi escreveu na segunda-feira (7):

O número que talvez melhor explique a derrota do Chavismo no verdadeiro plebiscito que foi o pleito parlamentar de domingo (6) surge de um estudo do sociólogo Luis Pedro España (Universidade Católica Andrés Bello): o número de lares em situação de pobreza na Venezuela passou de 48,4% em 2014 para 73% este ano.

É natural, segundo Rossi, que ante essa involução “a maioria de venezuelanos tenha abandonado o governo que dizia representá-los. Afinal, sua monumental incompetência não conseguiu protegê-los”.

Por que tudo isso importa?
A Venezuela tem um importante peso na América Latina, assim como o modelo chavista foi de alguma maneira uma referência para diversas forças políticas. Foi a eleição de Chávez, em 1998, que iniciou a onda de governos vermelhos e rosa na região — Lula em 2002, Kirchner em 2003, Morales, Correa, Lugo etc. O país faz, além disso, parte da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e tem, por exemplo, fortes laços com Rússia e China.