Quem mata mais na Síria, o regime ou o Estado Islâmico?

Por Diogo Bercito

Se você respondeu “o Estado Islâmico”, este post é para você.

Os tempos parecem tão bárbaros em países como a Síria e o Iraque que, ultimamente, não prestamos atenção aos detalhes. O Estado Islâmico tornou-se, em pouco mais de um ano de auto-declarado califado, o grande vilão da região –e de fato seus métodos são de uma brutalidade assombrosa. Mas a situação é um pouco mais complicada do que isso, e para muitos sírios esses terroristas ainda não representam a maior ameaça a suas vidas. O papel fica a cargo do regime de Bashar al-Assad.

A agência de notícias humanitárias IRIN publicou recentemente uma série de gráficos que ilustram esse argumento. Os números apresentados dão conta de que as forças de segurança da Síria estão em primeiro lugar –e sem concorrentes– no quesito massacre de civis.

Civis mortos na Síria entre janeiro e junho de 2015. Crédito IRIN/Reprodução
Civis mortos na Síria entre janeiro e junho de 2015. Crédito IRIN/Reprodução

O gráfico de barras acima representa, por exemplo, as mortes de civis entre janeiro e junho de 2015, divididos de acordo com o responsável pelas mortes. À esquerda, como uma torre, se ergue a barra com o número daqueles que foram mortos pelo regime sírio: 7.894. O segundo maior número representa aqueles que morreram nas mãos do Estado Islâmico: 1.131.

Se olharmos para o gráfico abaixo, que distribui essas mortes mês a mês, a diferença é ainda mais impactante. Em abril, por exemplo, há registro de 68 civis mortos pelo Estado Islâmico na Síria. O governo matou outros 1.519. Os dados foram compilados pela Rede Síria para os Direitos Humanos.

Civis mortos na Síria, por mês. Crédito IRIN/Reprodução
Civis mortos na Síria, por mês. Crédito IRIN/Reprodução

Espero que seja quase desnecessário escrever aqui que este Mundialíssimo blog não acredita que, por essas razões, o Estado Islâmico seja “melhor” do que o regime sírio. Os argumentos não se medem, nesse caso, pelos números, e matar mais ou menos pessoas não faz de um ator político mais ou menos moral.

Além disso, o número de mortes está também relacionado ao equipamento. O Exército de Bashar al-Assad ainda tem o monopólio do uso de aviões, dos quais derrama bombas de barril —a despeito da condenação internacional— sobre áreas densamente povoadas, matando dezenas de uma só vez.

Mas vale o debate, para quem se interessa pelo tema: os bombardeios americanos e da coalizão internacional contra o Estado Islâmico são de fato a solução para a crise regional? Que tipo de governo será mantido na Síria, caso os terroristas deixem de ter o controle de um amplo território ali? A quem estará garantida a legitimidade no país?