Darwin também caçava animais. O que isso significa?

Por Diogo Bercito
Protesto diante do consultório do dentista que caçou o leão Cecil. Crédito Glen Stubbe/Associated Press
Protesto diante do consultório do dentista que caçou o leão Cecil. Crédito Glen Stubbe/Associated Press

A essa altura, vocês já devem saber que o famoso leão Cecil foi morto no Zimbábue por um caçador. Caso não saibam, eis um resumo: um dentista americano caçou o emblemático felino a flechadas. O governo desse país africano pede sua extradição. Como escreveu o colunista  Toni Goes, o caçador é o novo inimigo número um da humanidade. Até minha gata preta entrou na campanha #JeSuisCecil.

Mas, desde a divulgação dessa notícia, tenho lido opiniões conflitantes sobre a caça de animais e os esforços de conservação. Ainda que pareça contraditório, há diversas organizações –incluindo o World Wildlife Fund, WFF– que apoiam a caça como uma maneira de proteger espécies ameaçadas. Mesmo Charles Darwin, “o da teoria da evolução”, caçava animais. O que tudo isso significa? Em quatro itens:

QUE LEÃO CECIL?, PERGUNTAM MORADORES DO ZIMBÁBUE

A milhares de quilômetros de distância, Cecil parece ser o grande assunto no Zimbábue. Mas uma reportagem da agência de notícias Reuters indica que, por ali, ninguém se importava muito com o tal leão. “Que leão?”, perguntou Prisca Mupfumira, ministra da Informação em exercício. Moradores parecem crer que a morte de Cecil é um “problema de primeiro mundo”, já que o Zimbábue —uma problemática ditadura— preocupa-se hoje com seu desemprego acima de 80%. Houve mais de 460 ataques de crocodilo entre janeiro de 2008 e outubro de 2013 ali, a maior parte deles fatal. “Por que os americanos estão mais preocupados do que a gente?”, perguntou Joseph Mabuwa.

FAMOSOS “CONSERVACIONISTAS” FORAM TAMBÉM CAÇADORES

O ex-presidente americano Theodore Roosevelt com o elefante que matou no Quênia, em 1909.
O ex-presidente americano Theodore Roosevelt com o elefante que matou no Quênia, em 1909.

A revista “National Geographic” publicou em sua página na internet uma galeria com fotografias de sete “conservacionistas” que também foram caçadores, incluindo Charles Darwin e o escritor Ernest Hemingway. O ex-presidente americano Theodore Roosevelt, que financiava parques nacionais, também disparava contra animais selvagens.

NÃO HÁ UM CONSENSO SOBRE A CAÇA

Moralmente, a resposta parece fácil: caçar um animal é horrendo. Mas a caça é também defendida como uma maneira de defender os animais. O site Vox tem uma excelente reportagem esmiuçando essa ideia a princípio estapafúrdia. Foi o que disse a esse jornal americano, por exemplo, Jane Smart, da direção da União Internacional para a Conservação da Natureza. Segundo um estudo, a legalização da caça ajudou a aumentar a população de rinocerontes brancos de 100 a 10 mil, na África do Sul. A legalização pode, por exemplo, garantir mais fundos para a conservação e incentivar populações locais a proteger os animais.

CECIL NÃO É O ÚNICO ANIMAL QUE IMPORTA

Ainda que o leão sirva de símbolo. Uma reportagem do jornal americano “Washington Post” registrou que, no mesmo dia em que Cecil foi morto, cinco elefantes em risco no Quênia também foram vítimas de caçadores, devido a seu marfim. Os elefantes correm um risco muito maior do que os leões, segundo esse diário, mas não ganharam as manchetes ao redor do mundo nem a ira da internet.