O que é o acordo nuclear com o Irã?

Por Diogo Bercito

Saiu. Depois de 20 meses de negociação, e sem que os pessimistas tenham deixado de dizer que nunca aconteceria, Irã e potências internacionais assinaram nesta semana um acordo para limitar o programa nuclear do país em troca do alívio de sanções.

A notícia vai embaralhar a política regional e afetar, de diversas maneiras, o cenário international. Para explicar essa questão com mais propriedade, convidei o repórter da Folha Samy Adghirni. Adghirni é hoje correspondente do jornal na Venezuela, depois de anos trabalhando no Irã –ele é autor, também, do livro “Os Iranianos”.

O que é esse tal “acordo histórico”?
O acordo firmado recentemente entre o Irã e as seis potências do P5 + 1 (EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha) estabelece uma espécie de contrato para conciliar duas ideias que muita gente pensava ser incompatíveis: a preservação do programa nuclear iraniano e garantias de que esse mesmo programa não será usado para obter uma bomba atômica.

Explica os detalhes, por favor?
O acordo é extremamente técnico e só especialistas em física nuclear são capazes de entender os detalhes relativos a enriquecimento de urânio. Enriquecer urânio é um processo tecnológico que permite tanto produzir tratamentos contra o câncer como fabricar uma bomba nuclear.
Em linhas gerais, o acordo estabelece que o Irã deverá enriquecer urânio em quantidade e grau de pureza muito menores e deverá se desfazer de seu estoque mais enriquecido. É uma maneira de inviabilizar a construção rápida de uma bomba atômica. O acordo também determina que os iranianos deverão aceitar mais inspeções da AIEA, a agência nuclear da ONU, que poderá ter acesso até mesmo a instalações militares onde os iranianos mantinham atividades nucleares suspeitas. Em troca, as grandes potências se comprometeram a aliviar sanções comerciais e financeiras que afetaram a economia iraniana. Teerã também poderá recuperar dezenas de bilhões de dólares que haviam sido bloqueados em bancos ocidentais por causa das sanções.

Irã

É histórico por quê?
O acordo é histórico porque interrompe uma escalada de tensão iniciada havia mais de dez anos e que parecia caminhar rumo a uma guerra de proporções épicas entre EUA e Irã. O desfecho das negociações foi visto por muita gente como prova de que, com boa vontade, até mesmo as disputas mais graves e profundas podem ser solucionadas. O pacto também entra para a história por ter significado um possível primeiro passo para normalizar relações entre o Irã e os EUA, que cortaram laços há mais de 35 anos.

Como o Irã sai ganhando?
O Irã ganha porque conseguiu dobrar as potências ocidentais e manter quase intacta sua capacidade nuclear. A economia iraniana irá se beneficiar do fim das sanções e da repatriações de grandes quantidades de dinheiro bloqueadas no exterior. O acordo também aliviou a pressão geopolítica contra o alto comando do Irã, que sai fortalecido internamente ao mostrar que sua “estratégia de resistência” rende frutos.

Como os EUA saem ganhando?
Os EUA marcaram um gol de placa ao mostrar sua capacidade de resolver problemas graves sem o uso da força. O presidente Barack Obama foi eleito em 2008 com a promessa de se tornar um líder de paz, não de guerra. Ao alcançar um acordo que parecia impossível, ele mostrou que sua obstinação e perseverança valeram a pena. Obama entra para a história como o presidente americano que iniciou a paz com dois arqui-inimigos: Irã e Cuba. O acordo também irá beneficiar empresas americanas, que não veem a hora de retornar ao mercado iraniano.

Quem ficou chateado com tudo isso?
Inimigos mortais do Irã, Arábia Saudita e Israel estão furiosos e dizem que os EUA estão sendo ludibriados pelos iranianos. Sauditas e israelenses acreditam que Teerã acabará tendo uma bomba atômica, que representará ameaça existencial para eles. Surgiram relatos na imprensa de que os dois países, tradicionais rivais que nem sequer mantêm relações diplomáticas, estão conversando sobre maneiras de atingir o objetivo comum de interromper a todo custo o suposto caminho do Irã rumo à bomba. Há quem veja recrudescimento do risco de um ataque israelense ao Irã, com possível cumplicidade saudita. Muita gente acredita que, no fundo, sauditas e israelenses temem que o Irã volte a se tornar o aliado principal dos EUA no Oriente Médio, como foi sob a monarquia laica do xá Mohammad Reza Pahlavi.

Como isso vai afetar a política do Oriente Médio?
O acordo deve deixar o Irã mais rico e mais forte, o que é uma péssima notícia para seus numerosos inimigos, como os governos de Arábia Saudita, a oposição síria e as tropas pró-governo no Iêmen.



E o restante do mundo? Vamos sentir alguma diferença aqui no Brasil?
A volta do petróleo iraniano no mercado global deve agravar o problema da oferta excessiva, que derrubou os preços do barril desde o ano passado. Isso afeta o Brasil, que apostou alto no pré-sal.

O Brasil tem alguma participação nisso? Me lembro de um acordo anterior…
O ex-chanceler brasileiro Celso Amorim disse que o acordo nuclear com o Irã costurado pelo governo Lula e pela Turquia em 2010 ajudou a pavimentar o caminho rumo ao pacto atual. É uma tese difícil de comprovar. O acordo turco-brasileiro visava retirar do Irã seu estoque de urânio mais enriquecido, não reconfigurar o funcionamento do programa atômico iraniano. Mas é possível que a mediação de 2010, na qual o Irã havia se mostrado surpreendentemente conciliador, tenha mostrado ao mundo a viabilidade de um diálogo sustentável sobre o tema.

Mas o Irã estava, afinal, tentando construir uma bomba nuclear?
O que pesam contra o Irã são suspeitas, algumas comprometedoras, como testes ocultos com detonadores típicos de uso militar no início dos anos 2000. Mas suspeitas não são provas. E os inspetores nucleares da ONU, que estão entre os maiores peritos do mundo no tema e fazem extensivo monitoramento diário no Irã há mais de uma década, jamais conseguiram provar intenções bélicas. O líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, disse reiteradas vezes que armas de destruição em massa, inclusive as nucleares, são algo incompatível com os valores do islã.