Como morreu o promotor argentino?

Por Diogo Bercito

Quem passou a infância debruçado sobre um tabuleiro de Detetive poderá ler este post  pensando no jogo. Coronel Mostarda, castiçal, sala de música? Mas o mistério da morte do promotor argentino Alberto Nisman não tem nada de divertido –na verdade, é um assunto sério que tem emaranhado a política daquele país há 50 dias.

Vocês talvez já tenham se perdido nos detalhes e no número de personagens novos, que não para de aumentar. Pudera. Na Argentina, vive-se a política mais ou menos como, no Brasil, se segue uma novela ou um campeonato de futebol. Cada traição, cada virada de mesa e cada drible são narrados e debatidos a exaustão.

Quando a política se vê entrelaçada por um crime misterioso, aí sim, estão na mesa os ingredientes para deixar os argentinos enfeitiçados e indignados por muito tempo. Mas por que esse corpo encontrado no chão do banheiro de um luxuoso apartamento do bairro de Puerto Madero importa tanto nesse determinado momento histórico do país?

O Mundialíssimo blog recebe hoje, para nos explicar esse caso, a repórter da Folha Sylvia Colombo. Autora de um blog sobre a América Latina, anteriormente correspondente em Londres e em Buenos Aires, além de ex-editora da “Ilustrada”, Colombo escreve abaixo sobre os detalhes da novela e sobre a tradição de “suicidados” na Argentina:

A jornalista Sylvia Colombo.
A jornalista Sylvia Colombo

Quem era o promotor Nisman?
Nascido em Buenos Aires em 1963, separado e pai de duas adolescentes, Nisman havia sido indicado em 2004 pelo então presidente Néstor Kirchner (1950-2010) para assumir as investigações sobre o bombardeio da AMIA (Associação Mutual Israelita da Argentina). Após dez anos trabalhando na causa, estava pronto para apresentar suas conclusões ao Congresso argentino, na segunda-feira, dia 19 de janeiro. No domingo, porém, morreu de forma súbita e, até agora, inexplicada.

Mas… o que aconteceu na AMIA?
O maior atentado terrorista de que se tem notícia na América Latina. Morreram 85 pessoas, além do terrorista que levou a bomba até o edifício numa pequena van, no centro de Buenos Aires. Foi em 18 de julho de 1994. Relatos de quem estava na cidade neste dia dão conta de que se via a fumaça desde os bairros mais afastados.

Por que, apesar de passados mais de 20 anos, não há ninguém condenado?
A cena do atentado foi adulterada e desapareceram fitas e outros documentos relacionados à explosão. Há uma acusação, feita pelo próprio Nisman, ao então presidente argentino na época, Carlos Menem (1989-99), por “alterar, obstruir e tentar neutralizar a investigação”.

Mas se sabe quem cometeu o atentado?
No começo, trabalhava-se com duas hipóteses. Uma era a chamada “pista síria”. Segundo esta, o atentado teria sido uma resposta do governo sírio a Menem, depois que este cancelou uma venda de reatores nucleares àquele país. A outra, que é a que Nisman achava a correta, era a “pista iraniana”: o atentado teria sido obra do Hizbullah, com apoio do governo do Irã, após a decisão argentina de suspender um acordo de transferência de tecnologia nuclear ao país.

Se Nisman havia sido indicado por Néstor Kirchner, porque decidiu se voltar contra Cristina?
A coisa é mais enrolada, na verdade, envolve a relação de Cristina com um ex-chefe do serviço secreto (então SIDE), Antonio “Jaime” Stiuso. Trabalhando na divisão desde 1972, e com ligações internacionais com a CIA e a Mossad, Stiuso tinha informação de empresários, políticos e movimentos sociais, por meio de uma rede de informantes infiltrados construída ao longo de 40 anos. Stiuso era um dos principais colaboradores de Nisman na investigação da AMIA. Ambos tinham uma relação boa com o governo até que, em 2013, Cristina resolveu propor um acordo com o Irã, por meio do qual a investigação da causa AMIA seria dissolvida.

Mas por que Cristina queria isso?
A ideia era oferecer isso em troca de petróleo para aplacar a crise energética. Quando soube disso, Stiusso não se conformou, e passou a fornecer informações a Nisman que incriminariam a presidente. Quando se deu conta, em dezembro do ano passado, Cristina tirou Stiuso do cargo. No vídeo abaixo, Nisman aparece criticando o acordo –que não andou, porque a corte suprema o declarou inconstitucional.

Ou seja, Nisman estava com medo de que Cristina viesse para cima dele, após ter se livrado de Stiuso?
Sim, Nisman sentiu-se exposto e solitário, com a saída daquele que era sua garantia. Acuado, resolveu fazer a denúncia de que Cristina havia tentado encobrir as investigações do caso AMIA em troca de um acordo comercial, munido de mais informações de Stiuso (a perícia divulgou que uma das últimas conversas que teve, na tarde do dia em que morreu, foi com Stiuso).

E, afinal, o que aconteceu com ele, foi morto ou suicidou-se?
É impossível afirmar por enquanto. A perícia, levada adiante pela investigadora Viviana Fein, tende a apontar para o suicídio. Mas a ex-mulher de Nisman, que é juíza e passou a integrar a causa em nome das filhas do promotor, afirma que foi um assassinato e até montou um time de peritos independentes para reunir provas nesse sentido.

Mas será possível descobrir o que realmente aconteceu?
Talvez nunca se esclareça de todo o assunto. Houve várias irregularidades na investigação. Começando com o fato de que altos funcionários do governo estiveram no apartamento antes de todo mundo, portanto teriam tido tempo para sumir com provas que incriminassem a presidente ou alguém ligado a ela. Tanto a perícia como as câmaras de segurança do prédio não fornecem evidência suficiente de que houvesse outra pessoa com Nisman. Também não havia indício de pólvora nas mãos do promotor.

Por que Nisman se mataria um dia antes de apresentar uma denúncia formal a Cristina?
Isso é o que não bate. Na semana anterior, Nisman havia dado entrevistas a canais de TV e jornais, falado com várias pessoas, e a todos dizia que estava preparando uma denúncia contundente. Os que o cercam o viam nervoso, mas muito ansioso para que chegasse logo o momento. Também afirmam que não tinha um comportamento depressivo. O que leva a pensar na hipótese do “suicidado”.

O que é isso?
Trata-se de uma fúnebre tradição argentina.Quando um crime político é cometido e faz-se com que pareça um suicídio, ou quando alguém se suicida sob forte pressão ou ameaça.

Já aconteceu no passado?
Infelizmente, há muitos casos de suicídios suspeitos de figuras ligadas à política. Um dos mais famosos foi o de Juan Duarte, irmão de Eva Perón. Tendo perdido a confiança do general Perón, “Juancito” morreu alguns meses depois da irmã, em 1953, com um tiro de escopeta na testa. Outro caso foi o de Lourdes Di Natale, em 2003. Havia sido secretária de Emir Yoma, cunhado de Carlos Menem. Depois que fez uma denúncia de que o ex-chefe estava envolvido com venda ilegal de armas, foi encontrada morta no térreo do edifício. Supostamente, teria se jogado. Mas tudo fica mais estranho pelo fato de Lourdes estar usando roupa íntima e segurando, na mão, uma faca, parecendo mais que tinha tentado defender-se de um invasor.

E mortes políticas inexplicadas, há muitas na Argentina?
Dá para mais de uma minissérie (de fato, o canal TN brincou com a ideia, ao lançar “House of K”, inspirada em “House of Cards”). As sagas ficam em aberto e dão espaço para mil especulações. Nos anos 90, o fotógrafo José Luis Cabezas fez a foto de um empresário que recebia benefícios de Menem e se gabava de nunca ter tido um retrato seu publicado. Cabezas publicou a imagem do milionário na capa da principal revista argentina. Não demorou para aparecer morto, corpo calcinado, dentro de um carro incendiado. O próprio empresário morreu pouco depois, o corpo encontrado com um tiro na cara.

Se Nisman foi assassinado, ou “suicidado”, devemos considerar que o culpado é Cristina?
Não enquanto não houver mais evidências. Há a hipótese de que tenha sido alguém do próprio serviço secreto, por fidelidade a Stiuso, ou mesmo alguém da oposição, para incriminar Cristina. Também, não se pode descartar governistas que tenham atuado sem que a presidente soubesse.