O que está acontecendo em Caracas?

Por Diogo Bercito
Samy Adghirni, correspondente da Folha em Caracas. Crédito Arquivo Pessoal
Samy Adghirni, correspondente da Folha em Caracas. Crédito Arquivo Pessoal

Acompanho de longe o trabalho do meu colega Samy Adghirni, atual correspondente da Folha em Caracas e ex-correspondente em Teerã. Nesses últimos dias, esse repórter tem estado bastante ocupado –na segunda-feira (23), por exemplo, a sede do partido opositor foi invadida em Caracas.

A notícia vem na esteira que, antes, levara à prisão do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma (com base em uma suposta delação obtida sob tortura, segundo a defesa). A legalidade da prisão é discutida, enquanto se cobra uma posição do Brasil.

Para quem está lendo essas notícias pela primeira vez e se perdeu entre tantos meandros, convidei o repórter Samy Adghirni para comentar o assunto aqui neste Mundialíssimo blog. Ele escreveu o texto abaixo.

A crise começou agora?
A degringolada geral da Venezuela vem de antes da queda petroleira. São varias coisas, a começar pelo rojão econômico deixado pelo Chávez que estourou na mão do Maduro (finanças estatais em frangalhos, governo gastando mais do que arrecada, desvios bilionários, ineficiência total, dilapidação do setor produtivo com expropriações etc.). Maduro herdou essa bomba-relógio.

Por quê “herdou”?
O chavismo era, basicamente, o próprio Chávez. Maduro era apenas mais um entre vários próximos colaboradores ao redor dele, todos segurando suas rivalidades enquanto o comandante vivia. Chávez morreu e Maduro ascendeu, só que há pessoas dentro do governismo que nunca o aceitaram.

Como ele lida com isso?
Maduro tenta acalmar as diferentes facções do chavismo (a militância, os ideólogos, os militares, os pragmáticos etc.) e acaba preso à própria hesitação e não agradando ninguém. Maduro parece truculento, inseguro, não tem habilidade.

Pior que Chávez?
Chávez era terrível, mas nunca atacou a mídia opositora e os empresários do jeito que Maduro faz. Chávez tinha jogo de cintura, sabia a hora de recuar e entendia que precisava de apoios no mundo empresarial.

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Quais são os inimigos de Maduro?
Para além da oposição, Maduro acumula inimigos inclusive dentro do governo e da esquerda. Parece um louco surtado em delírio paranoico. Mas o pior é que talvez haja alguma sabotagem em andamento, mas é como a história do menino que grita lobo, quando o lobo vem mesmo…

Tipo um golpe?
A Venezuela é golpista. Em 2002 a oposição derrubou o Chávez por três dias. Ele voltou ao poder graças ao apoio das massas e do baixo clero militar. Mas dez anos antes foi o próprio Chávez quem deu um golpe, alias festejado até hoje pelo chavismo como levante heroico. Desta vez acho que existe, sim, uma ameaça de golpe, mas ela vem de dentro do governo, dos militares que querem se aproveitar da fragilidade de um presidente impopular (22%), contestado e sem dinheiro.

Maduro está tentando evitar?
Maduro sabe disso e tem tratado os militares com carinho, dando aumento salarial acima da inflação, aparecendo com eles, pedindo palmas pros generais em eventos públicos etc.

E a população?
Chávez ia nos braços do povão porque sabia que o povão ia abraçá-lo. Maduro não faz isso porque se fizer, vai ser vaiado e cobrado pelas filas e pelo desabastecimento. Maduro é contestado dentro e fora do governo, é um cara sem traquejo e, agora, pra piorar, o petróleo desaba. É um revés a mais pra quem já andava mal das pernas.

Por que depende tanto de petróleo?
A Venezuela chavista não só não se planejou como aumentou ainda mais a dependência petroleira.

Era a única saída?
Olhe o que os iranianos fizeram. Há décadas diversificaram economia, investiram direito, gastaram muito com programas sociais, mas nunca além da conta. O Irã é um petroestado, sim, mas é um petroestado que tem industria e agricultura não só para alimentar o país como para exportar. Dubai igual. Pensando no futuro, criaram fundos de reserva financeira gigantes (com muito menos petróleo que a Venezuela).