Quem são os yazidis?

Por Diogo Bercito

A repórter da Folha Patricia Campos Mello viaja, durante esses dias, pelo Curdistão no norte do Iraque. Os leitores que se interessam pela região, ou pelo bom jornalismo, deveriam acompanhar o trabalho dela por ali. Hoje, por exemplo, Mello publicou uma reportagem sobre a minoria yazidi, perseguida pelo Estado Islâmico. Mas, antes de clicar no link, vocês talvez precisem se perguntar se sabem:

Afinal, o que é um “yazidi”?
É uma pessoa. Infelizmente, ainda é preciso insistir nessa primeira definição, já que os yazidis são mortos e perseguidos no norte do Iraque como se fossem alguma outra coisa. Além disso, os yazidis são um grupo étnico-religioso curdo que vive na província de Nínive no norte do Iraque. Há hoje 800 mil deles, segundo estimativas.

É o mesmo que “curdo”?
Não. Etnicamente, são curdos, mas os yazidis têm a sua própria religião. É um conjunto de crenças surgido por volta do século 11, fundado por um xeque omíada, unindo elementos do cristianismo, do islã e do zoroatrismo (uma antiga religião persa).

Que estranho!
Dificilmente. O zoroatrismo influenciou também o cristianismo e o islamismo. Essas religiões surgiram em uma mesma região, fruto da interação entre essas culturas, e não existe nada de “estranho” em nenhuma delas.

Mas no que um yazidi acredita?
Um yazidi acredita, por exemplo, que Deus criou o mundo e o deixou aos cuidados de sete anjos. Um deles, Melek Tawwus (“anjo-pavão”), recusou-se a homenagear a criação divina e, por isso, foi punido. Arrependido, Melek Tawwus foi perdoado por Deus. Essa é uma diferença enorme em relação ao cristianismo, ao judaísmo e ao islã, o que levou ao equívoco histórico de considerar os yazidis “seguidores do demônio”.

King Peacock, personagem criado por Alan Moore ("Watchmen") inspirado na crença yazidi
King Peacock, personagem criado por Alan Moore (“Watchmen”) inspirado na crença yazidi

Mas eles só estão sendo perseguidos agora, né?
Não. Segundo reportagem do jornal britânico “Guardian”, houve nos séculos 18 e 19 ao menos 72 genocídios contra eles, durante o domínio do Império Otomano na região. Esse foi também, aliás, o destino de outras minorias, como os drusos e os alauítas (grupo ao qual pertence o ditador sírio Bashar al-Assad).

Me dá um exemplo do que um yazidi faz?
A religião, também como as crenças dos drusos e dos alauítas, é bastante secreta. É impossível converter-se e virar yazidi. Mas, em linhas gerais, segundo uma reportagem da BBC: crianças são batizadas com água, um padre dá uma metade do pão ao noivo e outra à noiva no casamento, os fiéis jejuam por três dias em dezembro e peregrinam em setembro até a tumba do xeque Adi no norte de Mosul. Há também sacrifício animal e circuncisão.

Homem yazidi, em ilustração do etnógrafo alemão Max Karl Tilke.
Homem yazidi, em ilustração do etnógrafo alemão Max Karl Tilke.