Por que terroristas cortam cabeças?

Por Diogo Bercito
Vídeo que mostra a decapitação do refém japonês Kenji Goto. Crédito Reprodução
Vídeo que mostra a decapitação do refém japonês Kenji Goto. Crédito Reprodução

A organização terrorista Estado Islâmico, que controla um extenso território entre a Síria e o Iraque, divulgou no sábado o vídeo da decapitação do japonês Kenji Goto.

As imagens, publicadas como “mensagem ao governo japonês”, mostram cenas que infelizmente se tornaram frequentes: um militante mascarado cortando a cabeça de um refém ajoelhado, vestido de laranja. Foi assim com o jornalista americano James Foley e também com anônimos que nunca se tornaram notícia, apesar de ter sofrido a mesma violência (há um verbete da Wikipedia específico para esses assassinatos).

(Atualização: a mesma organização terrorista divulgou nesta terça-feira, 3 de fevereiro, imagens de um piloto jordaniano sendo queimado vivo. O ato segue a mesma lógica descrita aqui, em termos de atrair a atenção externa).

A primeira reação às imagens parece ser descrevê-las como “brutais”, “bárbaras”, “selvagens”. Mas, como este Mundialíssimo blog não acredita em gestos sem significado, vamos ao que está atrás do corte de cabeças. Começamos, então, como de praxe. Uma pergunta.

O Estado Islâmico inventou a decapitação de reféns?
Não. É uma mensagem já antiga e eficiente, entre organizações terroristas. O caso mais marcante é o do jornalista americano Daniel Pearl, decapitado pela Al Qaeda no Paquistão (a história virou filme com a atriz Angelina Jolie em 2007, “O Preço da Coragem”).

Por que o Estado Islâmico corta as cabeças?
O primeiro fator é psicológico. A conquista de Mosul pelo Estado Islâmico no ano passado, antes da instituição de seu “califado”, ocorreu afinal após a retirada do Exército iraquiano. Relatos dão conta do temor propagado pela organização terrorista, entre soldados locais. Apresentar-se como um grupo violento e sádico ajuda, nesse sentido, a garantir vitórias ao Estado Islâmico.

Funciona também como propaganda?
Se pergunte quando foi a última vez que um carro-bomba virou manchete. Eu estive no Iraque recentemente e, mesmo em Bagdá, as notícias de atentados eram lidas com desinteresse. Leitores estão anestesiados, e esses ataques já não têm impacto em uma estratégia de propaganda. As decapitações, por outro lado, recebem uma atenção brutal: a cada refém ocidental morto pelo Estado Islâmico, a organização terrorista ganha as manchetes no mundo inteiro.

Os muçulmanos são bárbaros!
Bem, a decapitação não é exatamente desconhecida no Ocidente. Lembra da guilhotina? Ela era usada até 1977 para cortar cabeças na França, como punição. Não vale a pena ceder a esses julgamentos velozes de que “os árabes são menos desenvolvidos”, porque essa não é a questão estratégica nessa história.

Mas há consenso entre terroristas para decapitar sua vítimas né?
Não. Na verdade, o contrário. Hamas e Hizbullah, por exemplo, não recorrem ao gesto (o que não quer dizer que não sejam violentos). De acordo com um texto publicado pelo “Washington Post”, Ayman al-Zawahiri, líder da Al Qaeda, pediu à franquia iraquiana da organização terrorista que parasse de cortar cabeças. “Muçulmanos nunca vão achar que as imagens são aceitáveis”, disse.

Então não há relação entre islã e decapitação?
Não foi isso o que eu disse. Há na verdade uma referência histórica no Alcorão, o livro sagrado do islã. Um estudo de 2005 cita um trecho que fala em atacar o pescoço de infiéis. Teologicamente, a mensagem teve força ao longo dos séculos. Mas, é claro, isso não significa que o islã equivalha a cortar cabeças. A imensa maioria dos seguidores dessa religião condena a violência. O Estado Islâmico é um grão dentro da diversidade islâmica, e sua visão é das mais radicais.

Quem está cortando as cabeças?
Não se sabe. Mas se imagina que em parte dos casos seja o mesmo homem, apelidado “John jihadista”. Acredita-se que ele seja britânico.