Pode desenhar o profeta Maomé?

Por Diogo Bercito
Maomé representado em caligrafia árabe.

Pode e não pode.

Essa é uma das perguntas que, na urgência para entender os atentados terroristas de Paris, ainda não tivemos tempo para nos fazer com calma. Mas, se estamos repetindo diariamente que um dos problemas de base é a intolerância à representação de homens sagrados, no islã, vale entender de onde vem essa crise.

Enviado especial a Paris, eu tenho conversado com muçulmanos sobre a ideia de desenhar ou não Maomé. As respostas tendem a ser de que isso é um “pecado”, mas não é incomum ouvir também quem não se oponha à prática. Além disso, nenhuma das pessoas que encontrei nas mesquitas e nos bairros islâmicos soube me explicar a razão dessa proibição. Por que, fundamentalmente, não está proibido.

A representação de Maomé não está proibida no Corão, o livro sagrado do islã. A tradição de não fazê-lo tem origem nos “hadith”, que são um conjunto de tradições relacionadas ao profeta, mas compiladas em tempo posterior. Apesar de não serem o livro fundamental do islã, esses ensinamentos fazem parte do que é considerado correto por muçulmanos, e têm peso na prática da religião.

A ideia de não desenhar o profeta do islã tem origem histórica no episódio em que Maomé destrói, em Meca, os ídolos celebrados na Caaba. A religião islâmica é fortemente iconoclasta, e –assim como o judaísmo– desautoriza a representação de Deus. Mas, ao contrário do cristianismo, no islã Maomé não é divino da mesma maneira que Jesus.

A tendência a não representar Maomé evidencia o respeito que muçulmanos têm em relação a sua figura. A mesma regra costuma valer, aliás, para Jesus ou outros personagens considerados proféticos no islã. Não é uma questão de tratar Maomé como uma divindade, mas reconhecer seu papel como mensageiro divino.

Há, assim, raros casos de representações de Maomé. Mas elas existem desde o surgimento do islã até hoje, feitas por mãos muçulmanas ou não –geralmente, ele aparece escondido por um véu ou tomado por chamas. O Mundialíssimo blog reúne, abaixo, exemplos históricos para questionar o discurso de que “é proibido, e ponto” e, quem sabe, sugerir um debate mais profundo sobre as outras questões relacionadas ao atentado ao “Charlie Hebdo”.

Maomé desenhado com um véu. Desenhado no Império Otomano ,no século 16.
Maomé desenhado com um véu. Império Otomano, século 16.
Cópia de um manuscrito do norte do Iraque, do século 14.
Cópia de um manuscrito do norte do Iraque, do século 14.
Maomé, Moisés, Jesus e Abraão juntos em prece. Sem data.
Maomé, Moisés, Jesus e Abraão juntos em prece. Idade Média.