O que foi a Primavera Árabe?

Por Diogo Bercito

A Tunísia votou neste domingo (26) para seu novo Parlamento, dando mais um passo na estabilização de suas instituições democráticas. Se você leu as notícias (por exemplo, clique aqui ou aqui), deve ter se deparado em diversas ocasiões com a expressão “Primavera Árabe”. Também se fala nisso quando se escreve sobre Líbia, Iêmen, Síria e Egito, entre outros, então talvez seja de bom tom garantir que nós sabemos –o que foi a Primavera Árabe?

Então. O que foi?
A Primavera Árabe foi uma onda de manifestações que, a partir de 2011, derrubou governos ao redor do mundo de cultura árabe: Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen. Também foi nesse clima primaveril que manifestações sacudiram, por exemplo, Marrocos, Bahrain e Líbano. Se entende, ainda, que a ideia de que é possível e urgente depôr ditadores tenha levado a embates violentos na Síria, evoluindo para uma guerra civil.

Mas por quê eles se revoltaram?
Esse tipo de pergunta leva tempo para ser respondida pelos pesquisadores. Mas está evidente o descontentamento popular nesses países diante de regimes autoritários, há décadas no poder, e também do deterioramento da situação econômica. Há uma corrente, defendida pelo jornalista americano Thomas Friedman (leia um artigo dele aqui), que estabelece relações entre a Primavera Árabe e uma crise ambiental –secas, más colheitas, êxodo rural etc.

Deu certo?
Bom. Se você estabelecer como objetivo a deposição dos ditadores, deu. Mas, alguns anos depois, já é possível olhar para esses eventos com um pouco mais de perspectiva e notar que a situação nesses países não necessariamente teve melhoras em termos econômicos ou sociais.

Me dá um exemplo?
Dou: Egito. O país se livrou do ditador Hosni Mubarak, vindo das fileiras militares, em fevereiro de 2011. Em 2012, elegeu o islamita Mohammed Mursi. Um ano depois, manifestações populares contra o então presidente Mursi levaram a um golpe –militar– e colocaram o general Abdel Fatah al-Sisi na Presidência. No meio tempo, o atrito entre seculares e islamitas aumentou e, por outro lado, a liberdade de imprensa diminuiu. Além do desastre econômico e da repressão estatal.

Parece ruim. Como foi isso no Iêmen?
Quando eu estive lá, em 2013, a situação parecia encaminhada (clique aqui). O Iêmen havia deposto Ali Abdullah Saleh, seu ditador (fev.2012), e reunia em um grande congresso representantes de diversas facções: separatistas, islamitas, jovens, mulheres, membros do antigo regime. O país era visto, no exterior, como exemplo de “revolução a fogo baixo”. Mas o diálogo entre as partes falhou e, nos últimos meses, rebeldes islamitas do norte invadiram a capital Sanaa, levando a confrontos violentos e à desestabilização do governo. Há também pressão do sul para retornar à divisão entre Iêmen do Norte e Iêmen do Sul.

Também não parece bom. Diz que a Líbia deu certo?
Olha, eles também conseguiram depôr o ditador Muammar Gadaffi (out.2011). Mas há em andamento hoje uma grave disputa entre o leste e o oeste do país, enquanto o general Khalifa Haftar lidera uma ofensiva pessoal contra rebeldes. Pesam, ali, a existência de milícias armadas e a disputa entre Trípoli e Benghazi.

Putz. Há esperança em algum lugar?
Sim. Na Tunísia, por exemplo, onde os avanços democráticos têm enfrentado, sim, obstáculos, mas têm também apontado para um outro futuro. De toda maneira, não se pode analisar um movimento histórico olhando apenas para alguns anos. Egito, Iêmen e Líbia ainda podem reverter as suas crises atuais e estabelecer instituições sólidas. A situação está muito mais grave na Síria, onde cerca de 200 mil pessoas já foram mortas na luta entre rebeldes e o ditador Bashar al-Assad.