Entenda a crise no Serviço Secreto dos EUA

Por Diogo Bercito

Você talvez não tenha se dado conta, entre as notícias sobre o ebola e o Estado Islâmico, mas em 19 de setembro passado um homem armado com uma faca invadiu a Casa Branca. A intenção e a violência não são a surpresa, neste caso, mas o sucesso da empreitada. Como relata uma reportagem recente da Folha (clique aqui para ler), Omar Gonzalez, 42, conseguiu pular a cerca –não metaforicamente–, cruzar o gramado, invadir a construção e subir as escadarias.

E daí?
Bem, e daí que se esperava que o presidente do Estados Unidos estivesse mais bem protegido.

O que significa que ele não estivesse?
Que alguém não fez bem seu trabalho. O que, por sua vez, resultou em seguida na renúncia de Julia Pierson, então diretora do Serviço Secreto americano (clique aqui para ler). As consequências políticas são, assim, bastante sérias. Pierson tinha tomado o controle da agência no ano passado, depois de escândalos de conduta na casa.

Em que o Serviço Secreto falhou?
Em primeiro lugar, não deteve Gonzalez enquanto cruzava o gramado. Em seguida, na ausência da guarda na porta e no fracasso de um alarme em soar, aparentemente por estar mudo a pedido da portaria. O invasor tardou em ser detido. Mas, ainda pior, é a constatação de que a agência ocultou a gravidade do incidente, dizendo que Gonzalez fora impedido logo após entrar.

Esquema da invasão da Casa Branca
Esquema da invasão da Casa Branca

Só isso?
Não. Os procedimentos deveriam incluir também o uso de cães de guarda na porta. De acordo com investigação do “Washington Post”, o animal não foi solto para perseguir Gonzalez por receio de que atacasse um dos seguranças que o caçavam.

Foi a primeira pisada na bola da agência?
Não. Em 16 de setembro, um homem condenado pelo uso de violência pôde entrar em um elevador com o presidente Obama em um prédio do governo enquanto carregava uma arma. Ele foi investigado por ter desobedecido às ordens de não filmar Obama com seu celular, e só então se descobriu que estava armado.

Mas a renúncia da diretora e a crise no Serviço Secreto afetam, de fato, as pessoas?
Sim. O “New York Times” publicou, por exemplo, uma reportagem sobre como a população negra nos EUA está reagindo à notícia (clique aqui para ler). Há a sensação, em determinados círculos, de que a agência deliberadamente não protege adequadamente o primeiro presidente americano negro.

Eu achava que fosse comum tentarem matar o presidente dos EUA.
É. Mas o número de ameaças triplicou com Obama, em relação aos presidentes anteriores, de acordo com o “Washington Post”. Interessados no assunto, aliás, deveriam seguir a cobertura desse jornal — a repórter Carol Leonnig é, em suma, a responsável pela enxurrada de informação sobre as falhas na segurança da Casa Branca. Clique aqui, por exemplo.