Leitores perguntam sobre a guerra em Gaza

Por Diogo Bercito

Recebi, durante a semana, uma série de mensagens de leitores que –estimulados pelo último relato neste Mundialíssimo blog— me perguntavam sobre Gaza. Como o tema ainda é relevante, e estará na pauta regional e internacional, voltamos aqui a ele.

Estaremos sempre abertos a perguntas. Sobre Gaza, ebola, o interior dos EUA ou o futebol com carcaças de bode no interior da Ásia. O que for. O único limite é o mesmo imposto ao blog irmão deste, o Orientalíssimo (clique aqui para visitar): comentários ofensivos não serão autorizados ou reproduzidos aqui. Dito isso, vamos às dúvidas, que agrupei em quatro questões:

Como as pessoas se divertem em Gaza?
A resposta fácil é que não se divertem. O cinema de Gaza é um prédio em ruínas, quase uma lembrança triste dos dias mais liberais, antes que o estreito de terra fosse governado pela facção palestina Hamas. Concertos de música também são problemáticos –entrevistei um rapper, no ano passado, que me dizia que é difícil conseguir autorização para um show, já que a liderança em Gaza insiste em músicas islâmicas tradicionais (clique aqui para ler). Álcool, é claro, é proibido. Mas as pessoas vão à praia, ainda que vestidas, e o elemento cultural envolve também a diversão em longas conversas fumando e bebendo chá. A resposta difícil é, então: as pessoas se divertem, em Gaza, como podem.

Cinema em Gaza. Reproduzo uma foto do blog Dispatches from Gaza.
Cinema abandonado em Gaza. Reproduzo acima uma foto do blog Dispatches from Gaza (clique aqui para visitar)

O Hamas impede  ou tenta controlar o trabalho dos repórteres em Gaza?
Há relatos de que, em alguns casos, sim. Mas, e aqui falo da minha experiência como repórter da Folha e na de colegas estrangeiros com quem convivi na região, a censura não é a regra. A entrada a Gaza passa pelo controle do Hamas, sim. Por outro lado, os militantes nunca me deram qualquer sinal de que se importassem com o que eu escrevo. Em diversas vezes me sentei com líderes da facção e fui recebido com educação. Em não poucas ocasiões discordamos durante a entrevista e nem por isso encerramos o encontro sem um gentil aperto de mão.

Por que foi criado o Estado de Israel e não um Estado palestino? Com um Estado palestino, as tensões não se dissipariam?
São questões fundamentais aqui, e sem resposta. O Estado palestino era previsto na resolução da ONU de 1947. Os judeus aceitaram. Os árabes, não. O Estado de Israel foi criado por um movimento de independência, em 1948, e a tensão aí é evidente. Mas, ao contrário do que por vezes se diz, o Estado de Israel dificilmente pode ser considerado a raiz de todos os problemas no Oriente Médio. A região foi vítima de políticas coloniais, como um todo, e não sofre apenas pelo conflito árabe-israelense.

Plano da ONU de 1947 para dividir o território da Palestina histórica entre um Estado árabe e outro judeu

A guerra em Gaza não pode ser considerada um genocídio, visto que o número de palestinos mortos é muito maior do que o de israelenses?
Essa não é a definição exata de genocídio (e sim a morte deliberada de um grande grupo de pessoas). O fato de haver disparidade nos números tem mais a ver com a diferença de capacidade militar do que com a intenção. Mas há quem diga, sim, que a guerra em Gaza foi a de um genocídio –o que pode ser contrariado pelo argumento, ainda que controverso, de que a morte de civis em Gaza é também responsabilidade do Hamas. A palavra “genocídio” é delicada e governos em geral evitam usá-la, nesse caso, pela carga política. A revista “Vice” tem um texto interessante sobre o tema, clique aqui para ler.