Por que a Catalunha quer ser independente?

Por Diogo Bercito
Separatistas em Barcelona. Crédito Emilio Morenatti/Associated Press
Separatistas em Barcelona. Crédito Emilio Morenatti/Associated Press

A moda agora é falar do referendo escocês. Tudo bem, voltaremos a ele na semana que vem. Mas o Mundialíssimo blog veio, no meio-tempo, a Barcelona para entender outro separatismo: o catalão (leia aqui). A ideia de separar a Catalunha do restante da Espanha não é nova, e a região tem há séculos sua forte identidade cultural. Mas, em tempos de crise econômica e de uma Escócia talvez independente, o tema se tornou urgente neste ano. Por quê? A ver.

Então. Por quê?
A independência catalã foi por um longo tempo apresentada como uma questão de identidade. “Somos diferentes dos espanhóis”, diziam os separatistas. Um amigo catalão me disse recentemente, “não me sinto espanhol”. Um dos argumentos tradicionais é o fato de que, na Catalunha, se fala catalão, uma língua distinta do castelhano (o que chamamos de “espanhol”).

Mas catalão não é um tipo de espanhol?
Não. É uma língua latina, como o português e o italiano, e por isso se parecem. Mas, linguisticamente, o catalão está no ramo “galo” das línguas latinas, o mesmo do francês.

É por isso que eles querem se separar?
Não. Como dizíamos ali em cima, esse foi por muito tempo um dos argumentos ou a prova de uma identidade distinta. Mas a questão é abordada, hoje, também como uma causa econômica, em especial após a crise financeira mundial da década passada. A Catalunha, afinal, contribui com uma larga fatia da arrecadação espanhola, mas recebe um repasse desproporcional que seus moradores consideram injusto. Há a sensação, se você perguntar a um catalão, de que Barcelona –industrial, turística– carrega regiões mais pobres nas costas.

Mas não é essa em si a ideia de um Estado?
Talvez. Mas um especialista em negociação europeia me dizia ontem: “Não queremos ser obrigados a sermos solidários”. Além disso, catalães sentem que são incluídos no projeto de Estado espanhol apenas pelo que produzem, e não por uma identidade cultural em comum. A língua chegou a ser proibida em diversos períodos, como durante a ditadura de Francisco Franco.

Então eles vão ser independentes? Já posso comprar um ímã para a minha geladeira?
Pode comprar o que quiser. Mas, sendo realista, as chances não são altas. Na verdade, a Catalunha já é uma região autônoma e tem seu próprio presidente, Artur Mas. O grau de autonomia é alto, com um longo rol de decisões tomadas sem o aval do governo central de Madri. Mas um Estado independente, como a Escócia vota na semana que vem, não está no horizonte.

O que vai acontecer, então?
A expectativa é de que o presidente Mas aprove, na semana que vem, uma consulta popular para 9 de novembro, perguntando a cidadãos se eles querem a) instituições independentes na Catalunha e b) se apoiam um Estado independente. No meio tempo, o Tribunal Constitucional espanhol deve dizer que essa consulta é ilegal e que não pode ser realizada.

Ai! E então?
Então, não sabemos. A Catalunha diz que 1,8 milhão de pessoas foram às ruas para pedir a consulta popular nesta quinta-feira (11), e pode usar esse apoio popular para seguir adiante com a consulta mesmo que ela seja considerada ilegal. Mas o voto não significaria, de toda maneira, que a Catalunha será independente, e a Espanha não está comprometida a respeitar o resultado.