O que está acontecendo na Ucrânia?

Por Diogo Bercito

Ih, muita coisa. Segurem nas mãos do Mundialíssmo blog para esta viagem às geladas terras ucranianas.

Antes de tudo… O que é Ucrânia?
Um país no leste europeu com uma área um pouco maior do que o Estado de Minas Gerais, aproximadamente 600 mil km². A Ucrânia –uma ex-república socialista independente desde 1991– faz fronteira com países que incluem Rússia, Romênia e Polônia. Sua capital, Kiev, é conhecida pelo monastério ortodoxo de Lavra, inaugurado no século 11.

O que a Rússia tem a ver com isso?
Bastante coisa. Como vocês podem ver no mapa abaixo, o leste da Ucrânia tem predominância da língua russa e população de etnia russa. O oeste, por sua vez, teve forte influência de outras culturas, como a polonesa, e predomina ali o idioma ucraniano. A identidade russa, fruto de séculos de domínio de Moscou, divide a população entre quem enxerga a Rússia como um símbolo opressivo e quem se identifica com a sua tradição.

Entendi. Se eu for ao oeste, tento falar em ucraniano. No leste, em russo. Mas qual é o problema político?
O problema é que as perspectivas de ambas as regiões colidem. No ano passado, o oeste quis integrar-se à economia europeia, mas foi frustrado pelo governo, ligado a Moscou. A insatisfação nas ruas e a repressão estatal desencadearam manifestações e culminaram em um golpe de Estado, depondo em fevereiro o então presidente Viktor Yanukovich. Eu acompanhei esse momento histórico in loco, e você pode clicar aqui para relembrar a história.

Só isso?
Não. A Rússia apoiou, a partir de sua derrota política, as inclinações separatistas no leste do país. A Crimeia votou e aprovou sua anexação ao território russo. Em seguida, regiões ao leste declararam sua independência, dando início a uma disputa civil que já deixou quase 3.000 mortos. Com a invasão russa do leste da Ucrânia, em agosto, as relações entre Ocidente e Rússia foram ao seu pior nível desde o fim da Guerra Fria. O mapa abaixo se refere a um momento anterior à anexação da Crimeia:

Qual é o cenário militar, hoje?
Em julho, com a intensificação dos embates, houve um momento em que a impressão era a de uma gradual derrota dos separatistas no leste da Ucrânia. Mas o apoio militar da Rússia –que tem um Exército mais forte, como é possível ver na ilustração abaixo– trouxe mais um elemento de instabilidade à crise.

Ouvi dizer que um avião caiu ali.
Exato. Em 17 de julho, um avião civil com 298 pessoas foi derrubado enquanto sobrevoava o leste da Ucrânia. Ao que parece, entre a troca de acusações, o abate da aeronave foi causada acidentalmente por forças rebeldes –armadas pela Rússia com mísseis disparados da superfície contra o ar. Separatistas já haviam derrubado aviões militares, ali.

Mas esse é um problema só deles, certo? Não tenho nada a ver com isso.
Não é bem assim. A Ucrânia tem uma posição estratégica em relação ao comércio de gás natural. O controle do território, ou a influência sob ele, interessa a todo o mundo, em especial aos europeus. Como vocês podem ver pelo diagrama abaixo, 33% do gás consumido na Europa vem da Rússia. Na Ucrânia, são 57%. As sanções econômicas europeias contra a Rússia estão, além disso, empurrando a economia de Moscou a um limite baixo.

Eu não moro na Europa…
Mas você assiste futebol? Caso assista, leia a interessante reportagem publicada recentemente na editoria de “Esporte” da Folha (clique aqui). Como mostra Bernardo Itri, a crise ucraniana abala também o saldo dos clubes do Brasil.